ENTREVISTA COM FRANKLIN MAXADO – O MAXADO NORDESTINO

Entrevista realizada durante o I Festival de Ilustração e Literatura da Bahia, em abril de 2015

Primeiramente, como de costume aqui no blog, me fale um pouco sobre como começou esse seu interesse pela Literatura de Cordel.

Eu sou nascido e criado em Feira de Santana. E lá tinha uma grande feira na praça, onde apareciam os poetas populares, os cantadores de viola, vendendo e declamando os seu trabalhos, e isso, no meu universo de menino, sempre me fascinou. Eu sempre parei pra escutar tudo isso. Às vezes eu fazia uns versos, mas não os publicava. Naquele tempo, a LC, assim como as Histórias em Quadrinhos e outras artes, não era bem vista, era tratada como imoral. O meu pai, que era dentista, por exemplo, condenava. Quando eu lia aquilo tudo era escondido dele. Depois de adulto é que eu tive uma consciência maior do que aquela arte representava e comecei a me dedicar a ela.

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Fonte: Google

Conte um pouco sobre a sua trajetória até entrar no “Cânone” da Literatura Popular, levando em consideração que o senhor é formado em Direito. Como se deu o processo de aceitação por parte dos cordelistas  já consagrados naquela época?

Sofri uma grande repulsa, inclusive por parte do J. Barros, que escreveu um cordel intitulado “Doutor, o que faz um Cordel?”. Na outra semana, eu respondi a ele com o texto “O doutor faz em Cordel o que o Cordel faz em doutor”. Nesse momento, o Raymond Cantel (1914-1986, professor da Universidade Poitiers e um dos maiores pesquisadores da Literatura Popular no Brasil) viu isso como um marco na nova Literatura de Cordel, porque até então o cordelista era visto como um homem bruto. Além disso, eu cheguei com novas técnicas de impressão do folheto, pois substituí a antiga tipografia pelo mimeógrafo, a xerox, a offset etc. Enquanto os antigos já estavam se aposentando, morrendo, eu cheguei com sangue novo nessa produção, viajei o país cantando, declamando, fazendo performances. Não dava para acreditar que essa Literatura seria eternamente produzida por escritores iletrados, analfabetos. É claro que sua origem está ligada à oralidade, mas o próprio Rodolfo Coelho Cavalcante me disse certas vez: “Não ficaremos ignorantes o tempo todo”. Isso foi um estalo. Percebi que o Cordel poderia se atualizar com os estudos e muita leitura. É o que está acontecendo hoje, visto que muitos poetas, como você, estão escrevendo e ensinando em escolas, universidades etc. Além disso, o próprio povo da roça também está se alfabetizando, entrando em universidades e tudo mais. É uma coisa natural.

FRANK E LULA
Fonte: Google

O senhor deixou a carreira de Direito para se dedicar exclusivamente à Literatura Popular. Me fale um pouco mais sobre isso.

Quando passei a me dedicar ao Cordel algumas pessoas diziam que eu não era um bom advogado e que eu tinha entrado no ramo como uma fuga. Mas não foi bem isso. Cheguei a trabalhar por tempos na Folha de São Paulo como jornalista, exerci outras atividades… Enfim… Não tinha necessidade de provar nada a ninguém. Tanto o curso de Direito quanto o de Jornalismo na verdade só me ajudaram a entender ainda mais o universo da cultura popular brasileira. A origem do Jornalismo no Brasil, por exemplo, está diretamente ligada à origem do Cordel.

Por conta do regime militar, que durou vinte anos no Brasil, o Cordel foi perdendo força a partir dos anos setenta. Isso porque uma das suas principais características é a crítica social, aliada ao seu caráter documental. Como foi a sua atuação nesse contexto?

Olha só, o cordel por muito tempo passou como folclore. Então ele não chegava a incomodar muito os “de lá de cima”. É claro que algumas pessoas desapareciam, e eu ficava muito preocupado com isso. Inclusive, escrevi cartas e entreguei aos meus amigos pedindo que eles as divulgassem caso algo acontecesse comigo. Tive muito receio. Alguns policiais chegavam às banquinhas onde eu vendia os meus folhetos, outros queriam me perseguir dizendo “o que é que um barbudo nordestino está fazendo aqui no sul? (S. Paulo)”. Eu tentava camuflar a coisa, dizendo que “isso era folclore brasileiro”. Mas não me envolvi muito em polêmicas, só queria fazer o meu trabalho.

franklin maxado - poeta nordestino brasileiro
Fonte: Google

3 comentários

  1. Grande Elton.

    Parabéns pela belíssima e importante entrevista com.esse vate do mundo do.cordel baiano.e brasileiro. Ele merece todo respeito e destaque, pois sua história de vida e poeta de cordel foi e é um marco na história do cordel.
    Importante para as futuras gerações saberem por quais trilhas tortuosas nosso cordel andou e venceu para hoje estar aqui, firme e forte.
    O Franklin é um incrível Mestre que tenho.máximo respeito. Já recitei e participei de muitos eventos com ele é sempre o reverencio e cito nos meus trabalhos.
    Só faltou você perguntar porque ele assumiu o nome Franklin maxado nordestino. Rsrsrsrs. É uma.história curiosa. Vale a pena saber.
    O cordel hoje é conhecido pelas bandas do Sul e sudeste graças a ele também.
    Abração e sucesso mil, irmão.

    Sérgio Bahialista

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  2. …….e como ser humano Franklin é incomparável. Além do mais é criador de cabras. Saudades de quando viajamos juntos para Canudos e fomos visitar o coronel de barranco Jerônimo.

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