ENTREVISTA COM BULE-BULE

CONVIDADO A PARTICIPAR NA ABERTURA DA SEMANA DA BIBLIOTECA DO INSTITUTO FEDERAL BAIANO – CAMPUS CATU, O MESTRE DA CULTURA POPULAR, BULE-BULE, DEDICOU UM TEMPINHO  PARA TAMBÉM NOS AGRACIAR COM ESSA SINGELA ENTREVISTA. AQUI O POETA FALA UM POUCO DA SUA TRAJETÓRIA, DA IMPORTÂNCIA DE LUIZ GONZAGA E SOBRE O MERCADO MIDIÁTICO DO BRASIL DE HOJE.

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Primeiramente gostaríamos de saber quem é Antônio Ribeiro da Conceição.

É uma flor do Norte Baiano, companheiro da República Federal, moço do código da lei, Caixola que Deus me deu, inspetor juramentado, se perguntar cadê ele, ele está aqui: seu criado! Filho de Manoel Jararaca que mora na Loca da Pedra, se meter o pé com ele vai ver o rolo da queda. Sou este moço que está na sua beira, cravo das moças e alecrim que cheira. Filho de Isabel Ribeiro da Conceição, doceira, louceira, benzedeira, parteira e outras eiras.

E quem é o Bule-Bule?

É um cantor repentista, tiraneiro, cordelista, forrozeiro, sambador, que veio hoje aqui (em Catu) bater um papo de mestre.

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Mestre, qual é a importância de Luiz Gonzaga para a sua trajetória como artista e como pessoa?

O grande Lua, não só pra mim, como acredito que para noventa por cento dos nordestinos, é um exemplo de vida, uma chamada para o social, uma defesa para os menos favorecidos, um defensor dos oprimidos etc etc etc… Musical e culturalmente falando, não se têm adjetivos para falar dele. Sem ele o Brasil seria bem menor, muito mais estreito, talvez uma faixa que ainda precisasse ser explorada. Certa vez, um cientista disse que se houvesse uma catástrofe natural no Brasil e se preservasse ao menos três livros do Câmara Cascudo poderíamos refazer tudo novamente a partir deles. Acredito que com o Luiz Gonzaga é a mesma coisa: se salvássemos a sua obra poderíamos reconstruir tudo o que diz respeito ao Nordeste.

O senhor recebeu recentemente, da Prefeitura de Lauro de Freitas, o título de doutor honoris causa. O que isso representa para o senhor, um homem do povo?

Isso. Recentemente a Prefeitura, junto a outras universidades, fez essa homenagem não só a mim, mas também para outras figuras como Gereba, Carlos Pitta entre outros. Todos sabem que quando uma instituição de respeito decide dar um título desses a um mestre popular é porque reconhece e valoriza toda a sua trajetória e qualquer um que estiver nesse lugar ficará certamente muito honrado. Eu fiquei muito satisfeito com isso. Não quer dizer que vou sair exibindo isso por aí, mas fico feliz por saber que é um reconhecimento pelos meus mais de 50 anos trabalhando em prol da cultura popular brasileira.

De que forma o senhor tem acompanhado as manifestações populares pelo país afora? O que tem observado?

Desde sempre as manifestações populares de raiz lutaram pela sua sobrevivência. O que está acontecendo de melhor agora é que, depois da passagem de Gilberto Gil pelo Ministério da Cultura, os mestres que nunca tiveram oportunidade de mostrar seus trabalhos começaram a ter mais visibilidade. Através dos editais promovidos pelo governo a nossa arte passou a se tornar mais acessível. Isso foi uma atitude muito nobre do presidente Lula e uma visão muito louvável do Gil que valorizou essa área.

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Agora vamos falar sobre a cultura pop no Brasil. Estamos presenciando, atualmente, um “fenômeno” midiático chamado Wesley Safadão. Se fala muito, hoje, em forró universitário, sertanejo universitário, arrocha universitário. O que o senhor tem achado de tudo isso?

Como diz o ditado: “quem não morre fica velho”. Né isso? Eu estou vivendo nessa época e vendo tudo isso. Se é o tipo de música que me agrada, eu digo que não. Se é algo que eu valorizo? Não é. Eu acho que ele (o Safadão) faz um trabalho que ainda vai circular por um certo tempo na mídia. Se a mídia quiser, se não aparecer algo diferente, ele vai permanecer aí por mais algum tempo. Mas esssa sustentação é muito frágil, porque isso não é raiz. É como o axé. Teve lá o seu período de ouro e foi perdendo força, os sujeitos saindo de suas bandas, procurando fazer carreira solo, mudando de ritmo, porque também não tinham sustentação cultural e continuam sem ter. Eu acho assim: Luiz Gonzaga nunca cantou pornografia e se sustentou até a morte, criou verdadeiros hinos, clássicos populares da nossa música. Se esses caras, com os instrumentos que têm, com a produção que têm, com palcos imensos, fizessem uma música mais honrosa, com mais sustentação, conseguiriam atingir um público maior e fazer algo de qualidade, que ficasse eternizado. Mas se você parar pra observar, o público que escuta esse tipo de música, me perdoe, mas tem um nível de inteligência muito baixo. Pode parecer que estou falando bobagem, mas eu estou no mercado há 40 anos sustentando uma família de 11 filhos apenas com o meu trabalho artístico. E estou muito feliz com isso.

O projeto do Bule-Bule na internet é muito bacana. O senhor tem um site lindo, além de um canal no youtube bastante acessado. Como o senhor lida com isso? É um homem antenado?

Eu não. Não sei mexer em nada disso não. Eu tenho parceiros. O meu filho, por exemplo, é o meu produtor. Além disso, eu tenho uma equipe, toda de jovens pensadores, que juntos fazem com que a minha carreira vá adiante e o meu trabalho seja visto também nessas novas tecnologias.

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(No início da aula-show “Um papo com o mestre” ainda tive o privilégio de participar de uma brincadeira com o querido Bule-Bule, que me convidou para tocar uma embolada. mais imagens no menu FOTOS)

4 comentários

  1. Gostei muito.Como catuense, recomendo;Catu, sua história, mitos e tradições(a história de Catu em cordel) e também o cordel mais de l SENHORA SANTANA DE CATU, publicado no gov de Gilcina e distribuído na missa mais de 700 exemplares.
    Sou confrade de Bule-Bule na Ordem Bras. dos Poetas da Lit. de Cordel e ele já cantou para mim em dois lançamentos em Salvador.Não pude ir a esse evento maravilhoso.

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    1. Legal, poeta! Bule Bule é uma grande pessoa e um verdadeiro mestre. É sempre bom tê-lo em parceria e amizade. Seja bem vindo por aqui e volte sempre. Abraço!

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