ENTREVISTA COM MARCO HAURÉLIO

Um dos mais importantes pesquisadores da cultura oral brasileira, do folclore e um dos maiores cordelistas do país, Marco Haurélio nasceu no município baiano de Riacho de Santana e hoje reside na cidade de São Paulo. É autor de diversos livros, entre eles, o “Breve História da Literatura de Cordel”, registro importantíssimo para nos aprofundarmos mais no percurso da nossa literatura popular. No mês de maio desse ano, ainda em meio à pandemia da COVID 19, tive o privilégio de fazer uma entrevista com ele, por áudio, que foi ao ar pelo programa de rádio Sacada Cultural da Radio Brasil Atual, 98,9, São Paulo. Depois de um tempo e muitas demandas, resolvi transformar a entrevista em texto e registrá-la aqui no blog, considerando a relevância das falas e a importância das palavras do Marco Haurélio para a cultura brasileira. Espero que gostem!

ELTON MAGALHAES – Olá, Marco! Seja bem vindo ao nosso blog. Para não perder o costume, gostaria que você falasse para os nossos leitores como seu deu esse seu encantamento pela Literatura de cordel. Como foi que tudo começou?

MARCO HAURÉLIO – Olá, Eton! É uma satisfação estar aqui falando com você que é uma pessoa tão importante para a difusão do cordel na Bahia, como autor e como investigador, como pesquisador, como professor. Olha, Elton, eu comecei muito cedo, muito menino. Tudo aquilo que envolvia esse caudal imenso das artes do povo estava presente na minha vida. Eu nasci na ponta da serra, que é uma localidade do município de Riacho de Santana, e eu ouvia as cantigas, os benditos, porque tinha uma igrejinha na frente da minha casa, que inclusive foi erguida por meu bisavô Ramiro, que foi um famoso vendedor e rezador em torno do qual há muitas lendas. E a minha avó paterna, a Luzia, cuja casa ficava ao lado da casa em que eu nasci, era uma pessoa que sabia muitos contos, conhecia muitas lendas, muitos romances, uma pessoa muito arguta também…e que sabia ler, coisa não muito comum no Sertão daquela época. Então as pessoas tinham um respeito enorme por ela, muitas vezes iam até lá e ela era a pessoa que passava as noites lendo os romances de cordel. Mas ela tinha também muita coisa retida na cabeça. Eu desconheço alguém que tivesse uma memória assim tão ampla. Então eu ouvia Juliana e Dom George, que é um romance que veio de Portugal, o ABC d Fazenda Formosa, o ABC da Onça da Mão Torta…Minha mãe conta que meu bisavô materno, que se chamava José, também era uma pessoa que fazia muita poesia, mas nunca aprendeu a ler nem escrever. Então ele se debruçava na janela lá da casa dele, e ficava matutando, matutando… e só depois de muito tempo, quando ele tinha já aquilo tudo na sua cabeça, conseguia juntar todas as rimas e deter na memória é que ele saía da janela e aí tinha um poema fechado. A arte não escolhe.

EM – Você vem realizando um brilhante trabalho de catalogação do folclore brasileiro, dessa cultura que passa pela oralidade, um trabalho inclusive, que eu vejo como uma continuidade à obra do mestre potiguar Luís da Câmara Cascudo. Nos conte um pouco sobre esse trabalho, a partir das suas andanças pelo país e quais os resultados gerados a partir dele até o momento.

MA – Eu fui professor no município de Igaporã, no colégio Joana Angélica de 2001 a 2005. Eu estudava em Caetité, na UNEB, cursava Letras, e no penúltimo ano eu senti essa necessidade. Eu ouvia o pessoal contando histórias, ouvia o pessoal cantando as cantigas de reisado, os aboios, e eu comecei a me recordar também das coisas da minha infância. E meus alunos do Ensino Fundamental II também estavam um pouco entediados com os textos didáticos muito distantes da realidade deles. Eu dei a sugestão para que eles começassem a ouvir os mais velhos: pai, mãe, avós, tios, vizinhos, e eu sei que a partir daí começaram a chegar os caderninhos com as cantigas de roda, com os contos, com as lendas, coisas da família também. Contos que vão para o gênero dos mitos: o conto do Berrador, Pai do Mato, Assombração, Botija enterrada… essas coisas que fazem parte do imaginário sertanejo. Quando eu levei a coletânea de contos do Cascudo e do Sílvio Romero para a casa dos meu pai, na Serra do Ramalho, ele diziam: “olha, isso aqui minha mãe conhecia um versão muito mias bonita do que essa” (risos). Eu recordava muita coisa, mas muita coisa já havia me esquecido. Aí ele começou a contar novamente eu eu fui anotando, com a ajuda da Lucélia (Borges), que hoje é minha companheira, e quando eu vim para São Paulo, com muita dificuldade, eu consegui publicar um volume, depois um outro, e aí começou um trabalho de recolha sistemática com a catalogação a partir do sistema ATU, que é o sistema Aarne-Thompsom-Uther, da Escola Finlandesa, e que de certa forma, reúne todos os contos. É uma classificação tipológica do conto popular. É dividido em contos de animais, contos mágicos ou de encantamento, contos religiosos, contos jocosos, contos novelescos, contos acumulativos, e aí tem subdivisões dentro desse sistema, e cada conto recebe um número, que de certa forma vai ser igual às versões espalhadas no mundo todo. A partir daí eu, com a ajuda da Lucélia principalmente, comecei a tentar mapear, basicamente a partir do nosso Sertão, que é vasto, mas como eu comecei a fazer muitas viagens também participando de eventos ligados à difusão do livro e da leitura, eu comecei também a ter contato com mais pessoas e fui descobrindo pessoas que basicamente detinham um conhecimento escondido, ou seja, nem mesmo a família desses indivíduos conheciam esse potencial. Foi o caso de seu Tião (Sebastião José), que estava catando papel e latinha num evento. Eu sentei em contei uns contos para ele e ele, todo desconfiado, depois começou a contar outros e eu vi que se tratava de um mestre, uma pessoa que tinha todo um domínio narrativo e contos belíssimos. E foi daí que surgiram os livros “Contos e Fábulas do Brasil”, “Contos Folclóricos Brasileiros”, “Contos e lendas da Terra do Sol”, que eu fiz com Wilson Marques, “O príncipe Teiú e Outros Contos Mágicos” e está a caminho “Contos Encantados do Brasil”, que deve sair no segundo semestre de 2021, e também o “Detrás daquela Serra”, que reúne cantigas de roda, cantiga de menina, cantiga de menino. Tenho reunido também romances, superstições, salmos e aos poucos a gente vai tentando. A minha ideia é justamente essa: enquanto eu puder, enquanto as pessoas ainda contarem histórias, enquanto elas estiverem conectadas à sua ancestralidade e espiritualidade, os meus ouvidos vão estar atentos a isso, afinal, essas narrativas fazem parte de uma correia de transmissão que nos conecta com civilizações das mais antigas.

EM – Você é um intelectual que passeia por diversas áreas da escrita: é editor, pesquisador, professor e poeta. Eu gostaria de saber se você considera algum desses trabalhos como algo mais relevante em sua obra, se você tem um carinho mais que especial por algum deles.

MA – Eu basicamente trabalho com a palavra. Então, eu não consigo enxergar uma atividade mais relevante do que a outra. Eu tenho até dificuldade quando se fala em atividade, porque isso em mim nasce espontaneamente. Quando eu pego meus cadernos de quando eu tinha 8, 9, 10 anos, eu percebo isso. Então é um encantamento com a mitologia, ou com o que eu imaginava que fosse a mitologia, e isso mesclado às narrativas da mina avó, do meu pai, da minha tia, das pessoas que viviam no meu entorno, e também daquele mundo encantado, que a gente começa a descobrir também por meio da TV, dos filmes de fantasia, das HQs… eu gostava muito de Conan, do Fantasma, e tudo aquilo a gente vai mesclando na nossa imaginação e vai nascendo um mundo novo também, um mundo concebido por nós. Então eu acho que eu acabo passeando por universos mais distintos e alguns chegam de uma forma mais casual. Por exemplo o teatro. Eu fiz uma adaptação de Shakespeare em cordel, de “ A Megera Domada”, da coleção Clássicos em Cordel, e ela foi levada ao teatro algumas vezes, inclusive na Bahia. Quando eu vi que a parte em que é do narrador (a rubrica do teatro) ficava com versos quebrados, eu tive que reescrever, aumentar diálogos de personagens, das uma dimensão nova ao texto, e não foi uma coisa imaginada, planejada. Também fiz textos para espetáculos ligados à música nordestina, e tudo isso não foi pensado nem planejado. Então, quando a gente lida com a palavra, ela nos conduz por caminhos que a gente nunca imaginou que pudesse passar. Quando as pessoas falam comigo geralmente elas me identificam muito com o cordel, mas a maior arte dos curso que eu tenho ministrado, por exemplo, tem relação com o conto popular e com a mitologia, conquanto o cordel seja ainda talvez aquela marca mais forte, mais presente na minha identidade como autor.

EM – Você vive já faz um tempo na cidade de São Paulo. É claro que ainda estamos num contexto de isolamento social devido à pandemia da COVID 19. Mas numa situação normal, ou pelo menos no “velho normal”, você teria como nos indicar espaços de compartilhamento e congregação da cultura popular brasileira ai na cidade? Digo de algum espaço para saraus, para venda ou apresentações dessas manifestações populares. No Rio de Janeiro, por exemplo, exite a ABLC e a feira de São Cristóvão. E em Sampa?

MH – Eu só discordo de você de uma coisa: eu acho que a vida normal continua com a pandemia e eu vou explicar. Por muito tempo a a gente liga a TV ou o rádio e a gente sempre vê alguém dizendo: olha, a economia vai mal, o mercado vai mal… então toda essa ideia de colocar o mercado acima das pessoas, acima do humano, de alguma forma vai dar nessa pandemia, não na pandemia em si mas nessa ideia de que a economia é mais importante do que a vida. Eu acho que a gente tem que reverter tudo isso, tem que rebobinar tudo isso e tem que buscar um novo caminho, que não é essa normalidade que foi inventada por sabe-se lá quem. Elton, aqui em São Paulo tem muitos espaços. O pessoal do cordel inclusive tem a Bodega, que fica na sala educativa e se reúne uma vez por mês. O João Gomes de Sá é uma pessoa que também tem feito muitas atividades em torno do cordel, com a Companhia do Cordel. Acho que não existe um local específico para isso, porque quando se trata da nossa arte a gente está se movimentando o tempo todo. A ideia da arte que a gente faz é a errância. A gente está no Centro Cultura de São Paulo, a gente está na (editora) Luzeiro, na (editora) Nova Alexandria, onde todo ano a gente fazia um evento ligado ao mundo do cordel, na Casa Tombada, onde eu dou cursos a respeito da cultura popular, da mitologia, o (instituto) Brincante, onde eu também dou cursos a respeito do cordel…os percalços e percursos dele ao longo de mais de cem anos… Nó somos muitos, somos um mosaico, e como tais a gente tem que estar em todo canto, senão fisicamente, com a nossa arte.

EM – Depois de ter editado, escrito e publicado alguns trabalhos de grande relevância, inclusive alguns trabalhos teóricos, como o “Breve História da Literatura de Cordel”, você acaba de entrar para o universo acadêmico, com uma pesquisa de mestrado. Qual o tema dessa sua pesquisa e como você acha que ela irá contribuir para a sua trajetória intelectual?

MH – A minha ideia é propor uma classificação tipológica do cordel. Eu falei do sistema ATU no início da conversa, e é justamente a partir desse sistema que eu proponho uma classificação tipológica que abarque a produção romanesca do cordel. Porque? A maior parte das classificações até então tentam abarcar todo o universo do cordel, tudo que foi produzido, e não se chega a um resultado assim… homogêneo… e você vê que não há uma classificação aceita. Tanto que todo estudioso segue a sua, como Manoel Diegues, (Franklin) Machado e outros mais tradicionalistas como (câmara) Cascudo ou Gustavo Barroso. Então a ideia, assim como a gente tem em outros campos do saber…é você selecionar a produção romanesca do cordel que vai pelo mágico, pelo encantamento, pelo realístico, pelo mítico. Você, por exemplo, fez há mais ou menos um ano, o “A Chegada de Moraes Moreira no Céu”. Aí você está no campo do mítico, dialogando com Dante, mesmo que você fale de um personagem da atualidade, que nos deixou a pouco tempo. Então a minha ideia é essa. É algo ainda que está em construção, mas nesse retorno acadêmico eu quis realmente deixar uma marca, fazer algo que ainda não tinha sido proposto. Pelo menos a título de sugestão.

EM – Para finalizar, e como também já é de praxe, gostaria que você analisasse o panorama da poesia popular brasileira no cenário contemporâneo. Quais são os autores e/ou as obras que você considera relevantes?

MH – Em 2018 eu estive no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde o cordel foi reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro, pelo IPHAN, e foi uma luta de muitos anos. Hoje o IPHAN, infelizmente, é praticamente um órgão morto, ele existe nominalmente mas não funciona. Inclusive foi tema de matéria jornalística essa inércia, e essa inépcia também, da instituição, e a gente fica chocado com isso, porque no momento em que o cordel poderia contar com políticas públicas e difusão, a gente recebe essa cacetada. Mas ao mesmo tempo eu posso citar uma “ Nova Antologia de Cordelistas Baianos”, organizada pelo Zeca (Pereira) e eu posso citar a Bahia, por exemplo, como um lugar de muita esperança. Você, o (Antônio) Barreto, Zé Walter (Pires), Bule-Bule, nosso mestre maior, sem contar aqueles que não estão mais entre nos. Tudo isso faz com que a gente resista. Mesmo com todas as dificuldades, que a gente se mantenha firme. Estou vendo que tem muita gente boa por aí produzindo e, por conta disso, é que eu propus uma coleção em que nós vamos reunir textos antológicos de alguns nomes conhecidos desse universo do cordel. E esses textos vão homenagear dois nomes que eu acho de suma importância: Josenir Lacerda e Bule-Bule da Bahia. A coleção se chama “Cordéis Antológicos”, da Nova Alexandria, e deve sair ainda este ano. Depois a gente vai continuar com outros nomes. A ideia é privilegiar os mais velhos primeiro. Acho que a melhor coisa que a gente pode fazer é homenagear esses mestres e mestras em vida. Então a gente continua sonhando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s